Jornal de Opinião

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23/01/12

“Investimento” em filhos. Há outra solução?

Economista de grande competência, directora de uma das melhores escolas de negócios, recomendava aos pais que investissem nos estudos dos filhos porque era a melhor colocação das poupanças que podiam fazer. Investir em casas era um mau negócio e isso está à vista com tanta casa vazia.

Outra notícia dizia que a Andaluzia estava a ficar ocupada como os filhos dos emigrantes do norte da África e vazia de filhos de espanhóis. Muitos comentaristas vão dizendo que o Estado Social não é sustentável simplesmente porque os idosos suplantam os novos. Vai-se repetindo ainda o facto que após fecharem centenas de escolas primárias e secundárias, agora será inevitável fechar ou fundir muitas universidades. E a razão primeira não é a falta de verbas. A razão primeira é que faltam alunos para as escolas, os colégios e as universidades porque a demografia desceu este ano em Portugal aos níveis mais baixos de sempre.
E os pais a teimar investir em casas para ficarem vazias, em carros e artigos de luxo, roupas, alimentação cara e nociva; depois eles, os pais, ficam cada vez mais sós, mais entregues a uma casa em que vivem sós, adoecem sozinhos e morrem sozinhos. Podem estar rodeados de “coisas”, muitas coisas, mas estas não aquecem o coração, não dão vida humana. Abandonados? Não, eles é que têm vindo a abandonar a sua missão e a centrar-se no seu umbigo, a cuidar só de si mesmos. Esqueceram-se ou enganaram-nos de que uma vida melhor poderia ser só para eles e para poucos mais, um filho , dois ou nenhum. Esqueceram que a vida melhor é vivida em partilha com os humanos do passado, os do presente e os do futuro, os que vão nascer e os que vão morrer. Economia de armazenar coisas leva as pessoas a ficar rodeadas de coisas, afogadas em coisas, no desamparo, no vazio, no suicídio antecipado. A vida de pessoa circula entre pessoas, é troca, é energia, é amor, é luz que as põe em comunhão.
Os últimos cem anos criaram o individualismo como se a vida fosse só de indivíduos, ilhas, como se cada individuo não tivesse nada a ver com todos os da sua espécie, com os outros que nos vão suceder. A vida humana só adquire o seu sentido quando os indivíduos se assumem como pessoas que são, seres de relação que têm dimensões da sua vida nos outros, a recebem doutros; e podem ter a felicidade de dar muitas dimensões da própria vida a outros.
O começo da solução de muitos males da doença pós-moderna do individualismo suicida e desta crise está em “investir” em vidas dos outros, em filhos, em seres humanos, em pessoas e na sua igual dignidade. Haverá outra solução? Quanto mais se dá mais e melhor se vive e se vai viver. Investir demasiado em animais e em coisas não preenche o vazio actual. Ao contrário, quanto mais se investe em vidas de pessoas, mais se respeita a sua dignidade, mais se fica rico, mais cresce a vida. Assim faz a “família trinitária” das três pessoas divinas. Foi para isto que Cristo, uma dessas pessoas, veio para o pé de nós, e se “faz” nós para que tenhamos vida e vida em abundância e nos tornemos Ele.

Jan. 2012
Aires Gameiro



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