Jornal de Opinião

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24/05/10

Bento XVI - Surpreendente

Já muito se disse e escreveu sobre o Papa Bento XVI, a pretexto da sua recente visita a Portugal. Apesar disso, não resisti a tecer, também, algumas considerações sobre este tão importante evento, que veio mudar, radicalmente, o pensar de muitos (católicos e não católicos).

Ao abrirmos os jornais e televisões encontramos os mais variados títulos: “Viagem a Portugal mudou a imagem de Bento XVI”, “Viagem do Papa foi uma surpresa”, “Este Papa e o comum preconceito”, “O Papa que não sorria”, “Bento XVI deixa herança a Fátima” (Expresso); “A mudança de Bento XVI”, “Uma visita que moveu milhões” (Sol); “0 Papa que cantou nos Jerónimos” (Sábado); “Ratzinger chegou a Portugal e partiu Papa” (Televisões), etc.
Estes títulos reflectem o pensar de muitos a respeito do actual Papa, eleito com 78 anos de idade, um dos mais eminentes teólogos, que sucedeu a João Paulo II, que ascendeu a chefe da Igreja Católica aos 58 anos, mais extrovertido e que cativava mais com a sua presença, do que com a palavra. O Papa João Paulo II, vindo dum país comunista, desportista, operário fabril e actor de teatro, quando foi eleito Papa, despertou, facilmente, a simpatia de todos; Bento XVI, académico, teólogo, músico, foi recebido, pela maioria, com antipatia e preconceitos, rotulado de “conservador”, “duro”, “introvertido”, “antipático”, etc. Os jornais chegaram a titular “ A marca Bento XVI vende menos que João Paulo II”!
No fim do dia 14 de Maio, os meios de comunicação social já afirmavam que a “Viagem a Portugal mudou a imagem do Papa”, pois, não só as pessoas passaram a ter uma ideia diferente de Bento XVI, como ele próprio também mudou fruto da calorosa recepção, que os portugueses lhe fizeram!
Podemos afirmar que a maioria dos portugueses (aqueles que o acompanharam, presencial-mente, e todos os outros que o seguiram na televisão) ficou satisfeita, honrada e agradecida pela vinda de Bento XVI (muitos países não têm essa honra), embora alguns (os do costume) não perdessem a oportunidade para a criticar, pois fez perder “milhões” com as “tolerâncias de ponto” e se gastou muito dinheiro com a “recepção”, num tempo de “crise” económica e com tanta gente a passar fome!
A ironia está em que todos esses “críticos” ficaram “satisfeitos” por não ir trabalhar, dando mostras que não estão nada preocupados com a tão propalada “crise”! O Evangelista João relatou, já há dois mil anos, a “critica” feita por um certo Judas ao gesto amistoso de Maria de Betânea quando brindou Jesus de Nazaré com um perfume caro (João 12, 4-8)!
Bem fez o Presidente da República ao agradecer, na despedida, a visita do Papa a Portugal: “A Vossa presença, a Vossa palavra e o Vosso exemplo trouxeram esperança aos corações agradecidos dos Portugueses...Portugal despede-se de Vós revigorado pela mensagem de esperança e confiança que nos deixais”.
Podemos dizer que as várias intervenções do Papa Bento XVI, ao longo dos quatro dias, “tocaram”, indelevelmente, todos os homens de “boa vontade” e não só os “fiéis católicos”, que acorreram, fervorosamente, a ouvi-lo. Mesmo antes de aterrar no aeroporto de Figo Maduro, já havia respondido, dum modo concludente, a todos aqueles que exigiam dele uma declaração sobre a “Pedofilia na Igreja”: “A maior perseguição não vem dos inimigos de fora, mas nasce nos pecados da própria Igreja”. Em Fátima, a propósito do celibato, lembrou aos “consagrados”: “Somos livres para ser santos, livres para ser pobres, castos e obedientes”.
No primeiro dia da visita, 11 de Maio, no Terreiro do Paço, o Santo Padre elogiou o espírito missionário dos portugueses, no seguimento da recomendação de Jesus: “Ide fazer discípulos de todas as nações”. A propósito dos ataques à Igreja “santa e pecadora” recordou que “é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos...e que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia e na política”.
Aos homens da cultura, Bento XVI recomendou um equilíbrio entre a tradição e o presente inovador, com uma busca constante da verdade e da beleza “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de Beleza”.
Nos seus discursos falou também do diálogo com o mundo e da “aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo”.
No Porto, àqueles que o acusavam de conservador ou ditador, o Santo Padre lembrou que “nada impomos, mas propomos”, reconhecendo que “nos últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos”.
O Papa Bento XVI terminou a sua visita a Portugal com o desejo de um “renovado impulso espiritual e apostólico” e que a sua bênção “seja portadora de esperança, de paz e de coragem”!

Cón. Fernando Marques

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