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13/05/12
Ao Compasso do tempo - 11 de Maio de 2012
A “doce França”, mais uma vez, é um eixo de equilíbrio. Muito mais: é um paredão contra o sistema especulativo e menos racional, por mais ajustamentos que se preguem.
Descartes bem cogitou a clareza e o brilho das ideias. Pelo pensamento, que se soergue no declinar da própria dúvida, conquista-se o galardão da existência. Nesse sentido, já S. Agostinho tinha aportada a tal clareza, como, de igual modo, nos convidou a mergulhar nas profundidades de qualquer texto, pondo de lado as aparências da superfície e captando o invisível da mesma linguagem. A arte de questionar o dizer, por escafrando, convida-nos a lobrigar o dito.
E tudo isto pela questão da França e dos seus filhos. Não escondo o afecto, para além do respeito, no que, algumas vezes, não sou acompanhado por tantos de amigos meus, que conheceram e conhecem esse país.
A racionalidade rigorosa e o mundanismo medíocre são trilhos da sua identidade. A maior exigência de maneiras e o ar mais deslavado são aliados. A tolerância e o despojamento e a intolerância mais assanhada, até no mundo da Igreja, são dedos da mesma mão.
O sentido da depurada liturgia, o desprendimento do dinheiro e das sumptuosidades, a simplicidade do viver normal, a coragem de abater muros e a fixidez de doutrinas encontram-se, no mesmo país, com a intolerância, com o azedo de concepções, com a laicidade “à francesa” (que é, ao invés da laicidade, o laicismo), de forma inimaginável.
Onde é que, em Portugal, poderia residir um aparato ideológico, capaz da “ocupação selvagem” dum templo católico, como ocorreu, no coração de Paris, com a igreja de “S. Nicolas de Chardonet?” E, no país da tal mal interpretada laicidade, como é possível que descrentes contrariem os seus princípios ao empunharem o hissope, ao fim da celebração exequial, aspergindo o caixão, em rito de religiosidade católica?! Os hábitos (mesmo os uniformes) nem sempre expressam a razão!
A França tem destes estilos, destas tradições, destes contraditórios. Vão prosseguir. Mas, para o meu gosto e convicção, como deveria aprofundar-se o diálogo e silenciarem-se tão numerosas tensões, até no campo da religiosidade. Tenho de saber compreender a existência de radicalismos e o pavor que eles espalham. Nos últimos tempos, a truculência de homicídios aumentou os medos e convidou à desconfiança e aos cuidados com a segurança. As pessoas extremam-se porque há extremismos.
As eleições do último domingo arrastaram para a primeira linha a esperança de que sistemas especulativos e as suas perversas medidas de austeridade, entrem em período de serenidade justa.
A racionalidade e os valores sociais de um mundo verdadeiro são um adquirido a ter em conta!
E, já agora, vou a França, ao Santuário de Lourdes, neste fim de semana, por motivo da Peregrinação Militar Internacional.
Lisboa, 11 de Maio de 2012
D. Januário Torgal Mendes Ferreira
Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança
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