Em Hera uma grande central eléctrica construída por empresa chinesa, já a funciona; pelos cerca de 800kms de estradas e caminhos percorridos observa-se a instalação de linhas novas de alta, média e baixa tensão; melhoram as ligações telefónicas; encontram-se agora aqui e além escavadoras, pás mecânicas, camiões pesados para transporte de terras a abrir novos caminhos ou a remover terras de barreiras caídas.
Há restauração, limpeza e pintura de edifícios: a Catedral, a escadaria de Cristo-Rei, a Igreja de Motael… e Igrejas novas como a de S. Sebastião de Bidau, Becóra…
É mais fácil comunicar em português com mais gente, como aconteceu ao autor, apesar de muitas deficiências no ensino por falta de professores fluentes em lusofonia e por falta de livros em português. Em Dili as modestas livrarias visitadas não os têm.
Impressiona também ver por todo o Timor grupos de crianças com uniformes a percorrer impensáveis distâncias para chegarem a escolas agrupadas mas longe das suas casas. Muitas delas não levam mais que um pequeno caderno para escrever. A escola já será para todas as crianças? Possivelmente não.
Há também situações e deficiências semelhantes às de quatro anos antes. As péssimas condições das estradas e caminhos, por onde circulam as “angunas” mais ou menos abertas ou com toldo com passageiros em cacho humano, os autocarros e muitos outros transportes como jipes de caixa aberta, camiões com gente, motocicletas com duas e três pessoas… Todos vão fazendo piruetas para fugir de um buraco ou lodaçal para se meter noutro e fazer 80kms em 5 horas! Continuam as dificuldades de acesso à internet fora de Dili, a intermitência de água e luz, são frequentes; a falta de pontes em ribeiras de algumas estradas de longo curso obrigam a desistir ou a maiores distâncias.
Continuam os “biscatos” de sobrevivência de recolha e venda de molhos de lenha à beira da estrada, de montículos de pedra, de areia nas ribeiras, de cachos de bananas e bancadas de venda direta de produtos de cultivo próprio a preços tão baixos que chocam o europeu. Em zonas à beira mar e à beira do lagoa Ira Lalaro o recurso à pesca artesanal permite levar peixe para casa ou vendê-lo pelos caminhos adjacentes em enfiadas de dúzias penduradas no pau à frente e atrás.
Quase um folclore cultural são as cenas de manadas de búfalos a “lavrar” os terrenos inundados para a plantação de arroz, andando de cá para lá ao toque da vara do pastor. Pelos caminhos e ruas de cidades continuam à solta os cães, galinhas, porcos, cabras que se atravessam continuamente à frente dos carros; e mais para as encostas por toda a parte pastam búfalos e cavalos de raça timorense. As pessoas percorrem como se fosse uma distração longas distâncias de três e mais horas para irem vender ou comprar algum artigo aos mercados, muitas vezes o “vinho” ou aguardente artezanal. Os sukos ou aldeias com frequência tem apenas um quiosque onde vendem utilidades, quase sempre de fabrico chinês ou indonésio. Um bicho ameaça Timor: a corrupção de que se fala bastante.
Timor, Fevereiro 2012
Aires Gameiro
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